Maikel Ramthun ← Voltar para o site

Porque consórcio é ruim

A armadilha financeira vendida como “planejamento” para quem quer comprar imóvel, carro ou carta de crédito sem olhar a conta inteira.

Quero falar de um assunto que vejo médico recém-formado caindo com frequência: consórcio. O produto parece bonito na conversa de venda. Não tem “juros”, cabe no bolso, dá sensação de disciplina e vem embalado com promessa de contemplação rápida. O problema é que, quando você abre a conta, a história muda.

Guarde isso: o sistema não empurra consórcio porque é bom para você. Empurra porque é bom para quem vende. Dá meta, dá comissão, dá margem. E o discurso é tão bem construído que até gente inteligente cai.

01O “não tem juros” é uma meia-verdade

O vendedor adora falar que consórcio não tem juros. Tecnicamente, ele está certo. Praticamente, isso não resolve nada.

O consórcio pode não ter juros com esse nome, mas tem taxa de administração, fundo de reserva, seguro, correção da carta, correção da parcela e, em alguns casos, taxa de adesão. Quando você junta tudo, o custo fica muito menos inocente do que parecia na conversa inicial.

Dinheiro não liga para nome bonito. Se saiu do seu bolso, é custo.

02Você pode pagar por anos sem receber o bem

No financiamento, ruim como pode ser, você compra o imóvel e recebe o bem no começo. No consórcio, você entra numa fila. Pode ser contemplado no mês 2. Pode ser no mês 80. Pode ser quase no fim.

Aí vem o segundo argumento clássico: “é só dar lance”. Sim. O mesmo argumento foi usado com todos os outros participantes que também querem ser contemplados rápido. Se todo mundo quer furar a fila, a fila continua existindo.

03O lance é vendido como atalho, mas pode virar prisão

O vendedor fala do lance como se fosse uma quase certeza. Não é. É competição. Você concorre com outras pessoas, com estratégias diferentes e, muitas vezes, com gente que entende muito mais do jogo do que você.

Enquanto isso, você segue pagando, sem usar o imóvel, sem receber juros sobre o dinheiro e ainda remunerando a administradora.

Se você precisa dar um lance enorme para tentar ser contemplado, talvez o problema não seja falta de consórcio. Talvez seja preço, prazo, renda ou expectativa.

04A análise de crédito aparece no pior momento

No financiamento, a análise vem antes. Você sabe se consegue crédito antes de assinar a compra. No consórcio, a análise pesada pode aparecer justamente na hora da contemplação, quando você acha que finalmente vai usar a carta.

Imagine pagar por anos, ser contemplado e descobrir que sua renda mudou, seu cadastro não passou ou a administradora travou a liberação. É o tipo de risco que quase nunca aparece no pitch de venda.

05Antecipar parcelas não reduz custo como no financiamento

Esse ponto choca muita gente. No financiamento, amortizar ou antecipar reduz juros porque existe saldo devedor sobre o qual os juros incidem. No consórcio, a taxa de administração e os demais encargos já estão dentro do contrato.

Antecipar parcela pode reduzir prazo. Mas não é a mesma coisa que comprar desconto financeiro relevante. Você paga antes o que pagaria depois. Compra tempo, não economia.

06O custo de oportunidade é o que quase ninguém calcula

A parte mais ignorada é essa. Quando você coloca R$ 3.000 por mês num consórcio por anos, você não está apenas pagando uma parcela. Você está deixando de investir esse dinheiro.

Esse é o ponto central: no consórcio, você paga alguém para administrar seu dinheiro enquanto abre mão dos juros que esse dinheiro poderia gerar para você. Em vez de receber juros, você transfere valor para a administradora e para a estrutura do grupo.

Faça uma conta simples: aportes mensais disciplinados em renda fixa de qualidade por 10, 15 ou 20 anos. Em muitos cenários, você chega mais forte para comprar à vista, negociar desconto ou dar uma entrada muito maior num financiamento de verdade.

07Quem é contemplado depois bancou quem recebeu antes

A lógica do consórcio é coletiva. Quem recebe cedo usa o dinheiro do grupo. Quem recebe tarde financiou a estrutura por anos sem ter usado o bem.

Se você é contemplado no fim, passou anos pagando taxa, correção e custo de oportunidade. E, se tivesse simplesmente investido as parcelas, poderia estar em situação patrimonial melhor.

08O caminho racional é mais simples, mas menos vendável

Se o objetivo é comprar um imóvel, a ordem racional costuma ser: juntar dinheiro, investir bem e comprar à vista quando possível. Se faltar pouco ou se fizer sentido antecipar a compra, busque financiamento com menor taxa possível e amortize de forma agressiva.

Financiamento também não é brinde. Mas ele tem uma vantagem enorme sobre o consórcio: você sabe melhor o custo, recebe o bem no início e consegue reduzir juros ao amortizar. No consórcio, você compra uma promessa com prazo incerto.

Conclusão

Consórcio é vendido como caminho inteligente porque parece organizado, não fala em juros e dá sensação de compromisso. Mas, para muita gente, é só uma forma cara, lenta e incerta de comprar algo que poderia ser planejado melhor.

O gerente tem meta. O vendedor tem comissão. A administradora tem margem. O consorciado tem a conta.

Não caia.

Três vídeos para complementar

Separei três vídeos para quem quer ver a lógica por outros ângulos. Clique no card para abrir no YouTube.

Leitura complementar Precisamos falar sobre o consórcio

Um texto complementar para quem quer estudar o tema com mais calma e entender por que a propaganda do consórcio costuma esconder o custo real da decisão.

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